Oportunidades de Capacitação

Jornalismo investigativo: 2.0

Por Jessica Weiss, Editora da IJNet
 

Na era da Internet, a reportagem investigativa está sendo renovada. Enquanto os repórteres do passado trabalhavam na maior parte do tempo sozinhos, apenas com um bloco de anotação ou gravador, muitos jornalistas de hoje colaboram com redes regionais e entre fronteiras, ajudados por tecnologias e ferramentas que estão revolucionando a maneira de fazer reportagem.

“A imagem do jornalista investigativo como um lobo solitário, trabalhando em um cubículo em um canto do mundo, não é mais verdade,”, disse Marina Walker Guevara, do International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ), à IJNet na semana passada na sede do grupo em Washington.

A recente investigação do ICIJ’s sobre o comércio ilegal de tabaco utilizou 22 repórteres em 14 países espalhados em uma dúzia de fusos horários. Com um time tão disperso, os repórteres apuraram “irregularidades na China e fábricas renegadas na Rússia, até reservas indígenas em Nova York e chefes regionais no Paquistão e África do Norte”, de acordo com o site do ICIJ.

Durante os 13 meses de investigação, o time usou um espaço online de trabalho, seguro e colaborativo para conversar, trocar documentos, fotos e vídeos, e editar as matérias.

O produto final, “Tobacco Underground” (em tradução livre, “Tabaco Clandestino”) revela um tráfico ilícito multibilionário que contribui a crimes, corrupção, terrorismo e doenças no mundo. As descobertas estão disponíveis em um pacote multimídia baseado em registros públicos, fontes e gravações cruas dos repórteres do ICIJ.

Como o “Tobacco Underground”, muitas matérias investigativas de hoje requerem meses, até mesmo anos, de pesquisa e equipes de repórteres. Algumas são multinacionais. E os repórteres estão apurando os temas melhor do que nunca, segundo o diretor do ICIJ e editor principal do projeto, David Kaplan.

“A reportagem investigativa ficou global,” Kaplan disse. “Seu uso está explodindo nos últimos cantos do mundo, mesmo em lugares onde não se esperaria, onde pessoas podem ser mortas por reportar a coisa errada”.

Em uma época em que os jornais estão cortando custos, os centros investigativos sem fins lucrativos são os principais responsáveis pelo alcance das reportagens, segundo Kaplan. Os três centros dedicados ao jornalismo investigativo são americanos: o Fund for Investigative Journalism (1969), Investigative Reporters and Editors (1975), e o Center for Investigative Reporting (1977).

Agora, há mais de 50 centros em todo o mundo, e mais da metade destes foi criada depois de 2000. Redes globais como o ICIJ – formado por 100 jornalistas em 50 países, e atualmente buscando expandir – fornecem uma plataforma para repórteres se conectarem com investigações entre fronteiras. Centros locais e regionais, como o Arab Reporters for Investigative Journalism; e o Romanian Centre for Investigative Journalism, e o Forum for African Investigative Reporters (FAIR), reúnem jornalistas em reportagens, colaborações, conferências, treinamentos e mais. O FAIR está patrocinando a primeira conferência de jornalismo investigativo que acontecerá neste mês em Johannesburg.

Em agosto, a conferência latino-americana de jornalismo investigativo premiou duas sérias de reportagens que expuseram a corrupção pública no Brasil e a gestão ilícita de contas da Igreja Católica na Costa Rica – matérias em dois países onde não existe uma longa tradição de jornalismo investigativo.

“Enfrentar uma instituição inteira na Costa Rica, um país muito católico, não é uma tarefa muito fácil,” Guevara disse.

Em alguns dos ambientes midiáticos mais repressivos do mundo, jornalistas estão encontrando maneiras de conduzir matérias investigativas sobre tópicos menos controversos, como questões financeiras e de consumo, problemas de saúde e meio ambiente. “Na China, você não pode escrever sobre o partido comunista, mas pode cobrir a corrupção a nível local”, Kaplan disse.

A revista chinesa Caijing, por exemplo, destacou-se como um estandarte da reportagem investigativa na região, por dedicar seus repórteres a investigações sobre dinheiro, afirmou Kaplan. Na Síria, o Arab Reporters for Investigative Journalism patrocinou uma reportagem sobre segurança alimentar.

“O importante é estabelecer uma metodologia – criar uma geração de repórteres treinados em  fazer este tipo de reportagem”, Kaplan disse. “O resto acontece”.

Mesmo em países com mídia independente, as matérias investigativas vêm com uma série de desafios. No caso do ICIJ, durante o trabalho para o “Tobacco Underground”, barreiras de idioma, cultural e tecnológica foram desafiantes, assim como trabalhar com vários fusos horários. Mais ainda, repórteres em regiões diferentes tinham níveis diferentes de treinamento, e vários estilos e padrões de reportagem, explicou Kaplan.

“Por exemplo, o trabalho incógnito é amplamente visto como último recurso no jornalismo americano”, ele disse, “o que não é verdade para muitos colegas trabalhando em países onde disfarçar-se pode ser a única opção”.

Na China, Paquistão e Rússia, a equipe do “Tobacco Underground” teve que se disfarçar para capturar imagens que apareceram no produto multimídia final. Em alguns casos, uma câmera do tamanho de um botão foi utilizada. Na China, o repórter Te-Ping Chen do ICIJ fingiu ser um traficante de Amsterdã. Na fronteira entre o Paraguai, Brasil e Argentina, os repórteres usaram uma câmera especial para filmar de dentro do carro.

Essas imagens acrescentam complementos visuais e de áudio para a reportagem impressa que dão aos leitores múltiplas maneiras de acessar a informação. Além de 18 matérias de textos, o projeto inclui áudio e fotos de um contrabandista paraplégico de El Paso e ex-agente do FBI que se fez passar como membro da máfia italiana. O vídeo leva leitores a uma fábrica de cigarros clandestina na Rússia (abaixo) e a bastidores do comércio na China. Um mapa interativo permite a leitores visualizar rotas de contrabando, produção de cigarros e pontos-chave de transporte. Uma página ampla de recursos oferece links para mais informações.

Por causa da natureza da matéria, com seus personagens e complexidade, o fator multimídia foi concebido como componente central da reportagem desde o início, segundo Chen.

“Sempre é um desafio para o jornalismo investigativo: lidar com pilhas de informações – neste caso um mercado negro de mais de US$600 bilhões em cigarros contrabandeados – e transformá-las em uma matéria acessível para a pessoa no escritório ou computador”,  Chen disse.

Contudo, os leitores irão encontrar matérias de 4.000 a 5,000 palavras, no estilo investigativo tradicional, no site do projeto. Jornais impressos internacionais traduziram e publicaram a matéria, e o projeto está disponível em forma de livro digital.

“Achamos ótima a tecnologia, e certamente tentamos usá-la sempre que possível [no “Tobacco Underground”], mas a matéria se baseia na reportagem e no fato de que os repórteres do ICIJ realmente conhecem suas regiões e fontes e conseguem abrir todas estas portas”, Guevara disse.

Kaplan, que tem mais de 30 anos de experiência em jornalismo investigativo, disse que os repórteres de hoje devem usar a tecnologia como o “grande equalizador”, porque muitos outros recursos estão sendo cortados.

O ICIJ está investindo em recursos para expandir o UJIMA Project, uma coleção de banco de dados, documentos e outras informações para jornalistas – até o momento somente disponível na África. Quando o projeto se tornar global, jornalistas de todo o mundo poderão acessar registros de agentes estrangeiros, documentação de venda de armas, contratos de desenvolvimento, dados da ONU e mais, a partir de uma simples busca online.

“As redações estão menores, o espaço para a notícia é menor, e simplesmente não temos os mesmos recursos que antes tínhamos”, ele disse. “Uma coisa que temos é excelentes técnicas e ferramentas que não tínhamos no passado”.

No mês passado, o ICIJ foi homenageado com o prêmio Knight-Batten para inovações de jornalismo em Washington, D.C., pelo projeto “Tobacco Underground”. O trabalho também chamou atenção das Nações Unidas, a Organização Mundial de Saúde e delegações de países para a questão do contrabando global de cigarros.

Mas mesmo com as novas formas de fazer reportagem, a arte do jornalismo investigativo continua enraizada nos mesmo princípios em que foi fundada, Kaplan afirmou, e requer as mesmas técnicas: como pensar nas matérias de maneira sistemática, como lidar com múltiplas fontes, como pesquisar registros públicos, como entrevistar e seguir pistas – pistas que levam a pessoas, dinheiro e responsabilidade.

Para Kaplan, os repórteres investigativos são como “bons policiais e fiscais honestos” que são estimulados pela esperança de fazer o mundo um pouco melhor.

“Nós abordamos a fundo temas complexos e verificamos se as pessoas que têm poder estão exercendo este poder de maneira responsável”, ele disse. “Assim é que a gente investiga”.

Para visitar o Tobacco Underground, acesse (em inglês) http://www.publicintegrity.org/investigations/tobacco/. Para visitar o ICIJ no Facebook, clique aqui.

 

 

Comentários

to view a partial list of crimes committed by FBI agents over 1500 pages long see
http://www.forums.signonsandiego.com/showthread.php?t=59139

to view a partial list of FBI agents arrested for pedophilia see
http://www.dallasnews.com/forums/viewtopic.php?t=3574

Какая шикарная статья! Читается, как детектив. Конечно каждый из нас подозревает какие вещи творятся вокруг нас, но знакомишься с расследованием и не можешь до конца поверить в это. Потрясающее впечатление от реальных видеороликов. Лица подпольных деятелей - сами предмет расследования. Очень важный вопрос: кто же за это все платит, немаленькая копеечка нужна, а опасность такой работы невероятная просто.

Да, уж, сильное впечатление. Молодцы ребята. Бросайте курить, и ocтавим этиx смаглеров без доходов!

Здорово!

Great story, thanks! I worked with ICIJ in the early 00's and their model really is on the rise, particularly now that it's clear that newspapers won't be able to offer much foreign coverage at all - much less investigative - in the near furture. And networks, once linked, tend to grow and evolve. ICIJ reporters were the core of what became Global Integrity's research network (http://www.globalintegrity.org), a more diverse group of reporters, researchers and academics that looks at anti-corruption policy.

As tools continue to improve, the costs of these projects will plummet. That's good for all of us.

грамотный подход к делу, спасибо админу, все четко и по полочкам
Не могу промолчать, спасибо автору, реально спасибо! Развивайте ресурс: у Вас это получается

Technology does change things, doesn't it? The Internet and cell phones have made the world even smaller now. Reporters have access to so much information and teams of other investigative reporters which cuts down dramatically on time spent and dollars spent. This is a win-win for everyone, especially the end consumer. recensioni

التكنولوجيا لا تتغير الأمور ، أليس كذلك؟ الإنترنت والهواتف المحمولة وجعلت العالم أصغر حتى الآن. الصحفيين من الحصول على الكثير من المعلومات وفرق من المراسلين التحقيق الأخرى التي خفضت بشكل كبير في الوقت الذي يقضيه والدولارات التي تنفق. هذا هو الفوز من أجل الجميع ، وخصوصا في نهاية المستهلك

Enviar novo comentário

The content of this field is kept private and will not be shown publicly.
  • Endereços de sites e e-mails se convertem em links automaticamente.
  • Allowed HTML tags: <a><h3> <strong><em> <strong> <cite> <code><br /><p> <ul> <ol> <li> <dl> <dt> <dd>
  • Linhas e parágrafos pulam automaticamente.

Mais informação sobre opções de formatação.